O destino é muito, muito malandro. Eu jamais imaginei que um dia, um dia como esses, fosse retratado através dos meus textos bobos. Mas é o que me resta e vou tentar fazer da maneira mais bonita que conseguir.
Você já teve um grande amor? Amor de uma vida inteira, amor que te faz dividir tudo, esperar tudo, doar tudo. Amor que te faz ser tudo. Esperar acordada até o outro chegar do trabalho, chorar de alegria quando ele obtém uma grande vitória, suar frio em imaginar perder. Amar de corpo, alma, sentimento, espírito. Ter a certeza que o amor vem de muitas, muitas vidas. Pedir que deus proteja essa pessoa, pedir mais por ela do que por você. Você já amou? Sim, eu já amei. Amei e amo muito.
Acontece que as vezes a vida nos separa. Meu pai me disse uma vez que separar e unir são os dois princípios universais do amor, pois é preciso reconhecer se é justo ou não estar perto de quem ama. Nós não fomos tudo aquilo que seu desejei, e e acreditei, sermos. Quebramos, partimos, acabamos. E hoje é a primeira vez após muitas vezes que não vou estar ao seu lado no seu aniversário, que não vou te abraçar forte, te desejar coisas lindas e pedir, com muita força, para que ainda passe muitas datas como essa com você. Hoje, para mim, será um dia completamente normal. Não estarei presente nas comemorações, nas fotos e nem nas recordações. E também sei que a tendência será essa. A cada ano que chegar será mais e mais comum estar longe e até esqueceremos do aniversário um do outro, talvez daqui a 10 anos eu não me lembre mais se você era de virgem ou de aquário. Mas hoje, hoje o dia quinze de setembro ainda é um dos dias mais bonitos do ano para mim e eu vou aproveitar para te desejar mil e uma coisas lindas, para te dizer que você merece o mundo inteiro e , por mais clichê que isso seja, que eu te desejo todas as coisas boas. Mesmo. Eu quero que você tenha um novo ano maravilhoso, cheio de esperança, cheio de realizações, cheio de presentes da vida. Que você tenha dias lindos com seus amigos, sua família. Que só chore se for de alegria, que sorria até a barriga doer, que ouça a sua música preferida várias vezes, que ria com vídeos novos do youtube, que beba muita cerveja e coma muito chocolate, carne, farofa e purê de queijo. Que seja um ano incrível, que seja o melhor ano da sua vida.
De todo o meu coração, feliz aniversário. Agora são vinte e uma primaveras, já é um homem diante do mundo. Um homem maravilhoso, cheio de qualidades, de sonhos e de força.
Boa sorte.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
Amargura.
Acordou meio amassada. Em meio ao cheiro de vodka que ainda reinava no quarto, sua boca seca e a sensação de que um trem tinha passado em cima dela denunciavam - a farra tinha sido longa. Levantou-se e esbarrando em alguns móveis, abriu a janela. Linda vista de uma praia paradisíaca. Tomou um banho e resolveu descer, tomar um ar sempre ajuda para quem tem ressaca.
A escolha da tal praia não foi aleatória. Além de ser o lugar perfeito em relação à distância da cidade - nem muito longe, nem muito perto, não era a praia da moda - tinha resolvido se bronzear naquele final de semana e não queria ninguém por perto notando as recentes imperfeições no quadril, causadas por tanto filé com fritas acompanhado de cerveja.
O que ela não contava a ninguém é que exatamente naquele dia faria cinco anos que ela e Téo tinham passado aquela lua de mel improvisada na praia. E após meses de separação, gostaria de tirar de uma vez por todas a marca da aliança que ainda a fazia lembrar todos os dias - Téo passou por você.
Já tinha planejado todo o feriado. Toda vez que lembrasse da lua de mel, iria recordar antes da última vez em que estivera na praia - Comemoração de três anos de casada, um ciúme indevido pela moça do bar e um copo de mojito jogado no seu rosto. Aquilo a fazia sangrar por dentro e lembrar dos motivos que sim, queria tirar a marca da aliança. E não, não iria utilizar anéis de apoio para matar a saudade de roçar o dedo do meio com o dedo médio e sentir aquele conforto. Ia mesmo abandonar o vício, talvez nem usasse mais anéis. Estava cansada de todos aqueles papos, todas aquelas teorias infundadas "tem que contar um dia para cada mês que vocês ficaram juntos" "você só vai esquecer quando arrumar um novo amor" e blá blá blá, todas aquelas coisas que as pessoas dizem quando estão com dó de alguém que perdeu tudo na vida - melhor amigo, companheiro, parceiro e o grande amor. Tudo junto e misturado em Téo, que não era o melhor do mundo em nenhuma dessas qualidades, mas que juntava todas elas naquele corpo bronzeado como ninguém.
Deitou a canga na areia da praia, sentiu o vento brincar com os fios dos seus cabelos. Olhou para o lado, viu um casal, aparentemente, recém casados, sentiu um frio na espinha e sorriu. Foi quando percebeu que ao invés de sentir inveja ou saudade, pensava em como ia doer o copo de mojito que a mocinha ao lado receberia no rosto em alguns anos. Amargura dói, mas saudade dói mais.
A escolha da tal praia não foi aleatória. Além de ser o lugar perfeito em relação à distância da cidade - nem muito longe, nem muito perto, não era a praia da moda - tinha resolvido se bronzear naquele final de semana e não queria ninguém por perto notando as recentes imperfeições no quadril, causadas por tanto filé com fritas acompanhado de cerveja.
O que ela não contava a ninguém é que exatamente naquele dia faria cinco anos que ela e Téo tinham passado aquela lua de mel improvisada na praia. E após meses de separação, gostaria de tirar de uma vez por todas a marca da aliança que ainda a fazia lembrar todos os dias - Téo passou por você.
Já tinha planejado todo o feriado. Toda vez que lembrasse da lua de mel, iria recordar antes da última vez em que estivera na praia - Comemoração de três anos de casada, um ciúme indevido pela moça do bar e um copo de mojito jogado no seu rosto. Aquilo a fazia sangrar por dentro e lembrar dos motivos que sim, queria tirar a marca da aliança. E não, não iria utilizar anéis de apoio para matar a saudade de roçar o dedo do meio com o dedo médio e sentir aquele conforto. Ia mesmo abandonar o vício, talvez nem usasse mais anéis. Estava cansada de todos aqueles papos, todas aquelas teorias infundadas "tem que contar um dia para cada mês que vocês ficaram juntos" "você só vai esquecer quando arrumar um novo amor" e blá blá blá, todas aquelas coisas que as pessoas dizem quando estão com dó de alguém que perdeu tudo na vida - melhor amigo, companheiro, parceiro e o grande amor. Tudo junto e misturado em Téo, que não era o melhor do mundo em nenhuma dessas qualidades, mas que juntava todas elas naquele corpo bronzeado como ninguém.
Deitou a canga na areia da praia, sentiu o vento brincar com os fios dos seus cabelos. Olhou para o lado, viu um casal, aparentemente, recém casados, sentiu um frio na espinha e sorriu. Foi quando percebeu que ao invés de sentir inveja ou saudade, pensava em como ia doer o copo de mojito que a mocinha ao lado receberia no rosto em alguns anos. Amargura dói, mas saudade dói mais.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
E...já!
O site astrológico disse que era tempo de renovação. Também disseram que, por essas épocas de inferno astral, eu estaria em contato maior comigo mesma e, portanto, mais segura de mim.
Bem, eu não acredito cem porcento em astrologia. Também não sei se esse lance de inferno astral é verdade. Só sei que o meu último ano foi, sim, um período em que me encontrei mais, me entendi mais e hoje me sinto mais "minha" do que nunca.
Sempre acreditei que todos os dias a gente deve tentar ser aquela pessoa que queremos ser. Seremos longe do ideal, mas o máximo de proximidade que conseguirmos será motivo para comemorar. Quero ser mais doce, quero ser mais inteligente, quero ser mais rica, quero ter mais amor, quero sorrir mais, quero ter mais saúde, quero ser mais organizada, mais, mais, mais. Queremos sempre mais. Esse ano, entretanto, foi o ano do meu menos. Fui menos chorona, menos medrosa, menos rancorosa, menos imatura, menos impulsiva, menos inconsequente. E, dessa forma, eu me tornei mais.
Foi um ano cheio de mudanças. E hoje, às 23h do dia 23 de agosto, a uma hora dos meus vinte anos, eu posso dizer que sim, eu sou feliz. Estou feliz. Ganhei pessoas, música, risadas, viagens, experiências lindas e eternas. Conquistei espaços, cresci internamente. Redirecionei os sonhos, o pensamento e os sentimentos. Pensei mais em mim, tentei ser mais eu. Um pouquinho de egoísmo não faz mal a ninguém.
Há 10 anos, eu pensei que aos vinte seria uma adulta. Aos 15, pensei que aos vinte seria bonita. Aos 18, achei que aos vinte teria conquistado o que sonhei. Aos vinte, me vejo imensamente feliz pela minha sede de viver e aprender que estamos sempre crescendo. A arte de transformar momentos difíceis em boas escadas é o que tenho tentado fazer.
E que venham mais brindes, mais sorrisos, mais músicas, mais beijos, mais livros, mais viagens, mais amores, mais cervejas, mais chocolates, mais sorrisos de novo. Que venha tudo que me faça sentir bem. Que venha com tudo. Estou pronta e com vontade de viver. Pode vir, vem que eu quero.
Que os vinte sejam melhores, muito melhores.
Feliz aniversário. Feliz ano novo. 1, 2,3 e já.
Bem, eu não acredito cem porcento em astrologia. Também não sei se esse lance de inferno astral é verdade. Só sei que o meu último ano foi, sim, um período em que me encontrei mais, me entendi mais e hoje me sinto mais "minha" do que nunca.
Sempre acreditei que todos os dias a gente deve tentar ser aquela pessoa que queremos ser. Seremos longe do ideal, mas o máximo de proximidade que conseguirmos será motivo para comemorar. Quero ser mais doce, quero ser mais inteligente, quero ser mais rica, quero ter mais amor, quero sorrir mais, quero ter mais saúde, quero ser mais organizada, mais, mais, mais. Queremos sempre mais. Esse ano, entretanto, foi o ano do meu menos. Fui menos chorona, menos medrosa, menos rancorosa, menos imatura, menos impulsiva, menos inconsequente. E, dessa forma, eu me tornei mais.
Foi um ano cheio de mudanças. E hoje, às 23h do dia 23 de agosto, a uma hora dos meus vinte anos, eu posso dizer que sim, eu sou feliz. Estou feliz. Ganhei pessoas, música, risadas, viagens, experiências lindas e eternas. Conquistei espaços, cresci internamente. Redirecionei os sonhos, o pensamento e os sentimentos. Pensei mais em mim, tentei ser mais eu. Um pouquinho de egoísmo não faz mal a ninguém.
Há 10 anos, eu pensei que aos vinte seria uma adulta. Aos 15, pensei que aos vinte seria bonita. Aos 18, achei que aos vinte teria conquistado o que sonhei. Aos vinte, me vejo imensamente feliz pela minha sede de viver e aprender que estamos sempre crescendo. A arte de transformar momentos difíceis em boas escadas é o que tenho tentado fazer.E que venham mais brindes, mais sorrisos, mais músicas, mais beijos, mais livros, mais viagens, mais amores, mais cervejas, mais chocolates, mais sorrisos de novo. Que venha tudo que me faça sentir bem. Que venha com tudo. Estou pronta e com vontade de viver. Pode vir, vem que eu quero.
Que os vinte sejam melhores, muito melhores.
Feliz aniversário. Feliz ano novo. 1, 2,3 e já.
domingo, 14 de agosto de 2011
Mudam as roupas, os números de telefone, o peso, a idade, as músicas. Só não dá para mudar as paixões. Essas ficam impregnadas na alma, como whisky fica no hálito. E vai dando saudade, saudade de mim e de você e de tudo que a gente era, de como a gente era, de como a gente era. Dos sonhos que eu tinha, acreditava e torcia para que se tornassem reais. Tenho saudades da pessoa que eu era com você todos os dias. Todos os dias.
As coisas ficam sempre bem, não há dor ou mal que dure para sempre - pelo menos não o tempo inteiro. Mas, o destino é menino mimado, não pode ver a gente bem que tenta dar uma rasteira. Uma pessoa passa com o seu perfume, com o seu cabelo, com o seu sorriso. Na verdade acho que nenhum deles tinham nada de você, mas é tanta saudade dentro de mim que tento te enxergar a todo custo.
Vem cá, deixa eu te falar da última semana, deixa eu te falar do restaurante novo que eu descobri, da banda coreana que eu to viciada, do filme que eu assisti no cinema e odiei. Deixa eu te dizer que tive uma febre que quase me matou, que minha mãe casou e foi morar na Rússia, deixa eu te falar do capítulo da novela, da minha dor nas costas. Mas deixa eu te falar da minha vida, eu não consigo imaginar coisa mais estranha do que viver sem você saber.
E aos poucos eu vou me tornando alguém que você não conhece, alguém que eu também não conhecia. Essa pessoa que eu sou hoje combina com a minha nova vida. Novo trabalho, novos amigos, novas músicas. E você vai fazendo parte do que eu fui, mas continua aqui dentro de mim, no que eu sou.
Você não para de pulsar dentro de mim.
As coisas ficam sempre bem, não há dor ou mal que dure para sempre - pelo menos não o tempo inteiro. Mas, o destino é menino mimado, não pode ver a gente bem que tenta dar uma rasteira. Uma pessoa passa com o seu perfume, com o seu cabelo, com o seu sorriso. Na verdade acho que nenhum deles tinham nada de você, mas é tanta saudade dentro de mim que tento te enxergar a todo custo.
Vem cá, deixa eu te falar da última semana, deixa eu te falar do restaurante novo que eu descobri, da banda coreana que eu to viciada, do filme que eu assisti no cinema e odiei. Deixa eu te dizer que tive uma febre que quase me matou, que minha mãe casou e foi morar na Rússia, deixa eu te falar do capítulo da novela, da minha dor nas costas. Mas deixa eu te falar da minha vida, eu não consigo imaginar coisa mais estranha do que viver sem você saber.
E aos poucos eu vou me tornando alguém que você não conhece, alguém que eu também não conhecia. Essa pessoa que eu sou hoje combina com a minha nova vida. Novo trabalho, novos amigos, novas músicas. E você vai fazendo parte do que eu fui, mas continua aqui dentro de mim, no que eu sou.
Você não para de pulsar dentro de mim.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Quando Téo foi embora.
Quando eu e Téo resolvemos acabar o nosso casamento - acabar, que maneira horrível de se dizer que não se tem mais um relacionamento. Mas é isso mesmo que fazemos, não é? Acabamos os sonhos, os planos e tentamos até acabar com as memórias - foi um acordo. Ambos sabíamos que o sol não brilhava mais em nossa casa como tinha brilhado um dia. As longas conversas na sala de estar sobre anarquismo, a novela, a vida do vizinho ou o futuro político do país tinham se resumido a "boa noite, meu bem, estou com dor de cabeça e vou me deitar" e blá blá blá, todas aquelas amenidades que se fala quando já não se tem mais tesão de sentar e fazer qualquer coisa, nem que essa noite seja nada.
Em um almoço, entre o "me passa a verdura, querido" e o "o peixe poderia estar mais salgado, meu bem", Téo me disse que gostaria de pedir o divórcio. Continuei comendo, mastigando e ouvindo o som dos meus dentes rasgando a comida, lembrando de respirar para não morrer e de piscar. Não consegui dizer nada naquele momento. Téo, por sua vez, continuou fazendo o que mais sabia: fingindo que nada estava acontecendo.
Um dia após a ida de Téo, notei que a minha casa era mais vazia do que eu tinha noção. Os móveis pareciam todos de outra pessoa, nada mais tinha a minha cara. E foi quando eu notei que quando eu era de Téo, eu era outra. Que se eu morasse sozinha, a casa seria totalmente diferente. E não, não pensem que Téo era um desses manipuladores que ajeitam tudo da maneira que mais gostam, porque Téo sempre foi um bom menino e até mais fácil de ceder do que eu. A verdade era que, por alguma razão, com ele eu era mais viva, mais corajosa e e mais maluca. A parede vermelha da sala não fazia mais sentido. Sem Téo, eu não era o tipo de pessoa que tinha uma parede vermelha em casa. Precisava de tons pastéis.
Após alguns meses, a casa ficou sendo cada vez mais minha. Tirei a bicicleta de Téo da varanda, mandei pra casa da mãe dele. Me mudei para o quarto do meio e fiz da suíte uma sala de TV. Pouco a pouco, fui preenchendo a casa com outros móveis, outras lembranças e deixando Téo cada vez mais no passado. Mas, como uma assombração ou milagre, ainda sentia a sua presença em todos os cômodos do apartamento. Téo não estava mais na casa, mas estava ainda em mim. Tão em mim, tão dentro de mim, tão forte e presente em mim que eu achava um absurdo achar que eu não estava mais nele. Bem, eu não estava.
Durante anos, esperei o telefonema de Téo, o interfone tocar e alguém lá no térreo falar "oi, sou eu, voltei para nossa casa e a nossa parede vermelha, me aceite de volta". Não, Téo nunca voltou, jamais telefonou. E, sim, eu ainda espero Téo. Ainda acho que um dia isso acontecerá, alguma coisa dentro de mim me diz que Téo um dia vai chegar.
Tive vários namorados, amantes, ficadas, amigos com benefícios. Mas jamais trouxe alguém à minha casa com Téo. Nunca tive coragem de destruir a última lembrança que restava: o nosso amor dentro do nosso lar. E, as vezes, quando estou sozinha, na cozinha ou na varanda, sinto a sensação que Téo está tomando banho ou lendo jornal. Penso que ele saiu e foi comprar pão, que foi comprar cigarros e cerveja. Penso que Téo vai chegar a qualquer momento.
Deixo apenas uma lágrima cair, levanto a cabeça e saio de casa. Um dia o telefone vai tocar.
Em um almoço, entre o "me passa a verdura, querido" e o "o peixe poderia estar mais salgado, meu bem", Téo me disse que gostaria de pedir o divórcio. Continuei comendo, mastigando e ouvindo o som dos meus dentes rasgando a comida, lembrando de respirar para não morrer e de piscar. Não consegui dizer nada naquele momento. Téo, por sua vez, continuou fazendo o que mais sabia: fingindo que nada estava acontecendo.
Um dia após a ida de Téo, notei que a minha casa era mais vazia do que eu tinha noção. Os móveis pareciam todos de outra pessoa, nada mais tinha a minha cara. E foi quando eu notei que quando eu era de Téo, eu era outra. Que se eu morasse sozinha, a casa seria totalmente diferente. E não, não pensem que Téo era um desses manipuladores que ajeitam tudo da maneira que mais gostam, porque Téo sempre foi um bom menino e até mais fácil de ceder do que eu. A verdade era que, por alguma razão, com ele eu era mais viva, mais corajosa e e mais maluca. A parede vermelha da sala não fazia mais sentido. Sem Téo, eu não era o tipo de pessoa que tinha uma parede vermelha em casa. Precisava de tons pastéis.
Após alguns meses, a casa ficou sendo cada vez mais minha. Tirei a bicicleta de Téo da varanda, mandei pra casa da mãe dele. Me mudei para o quarto do meio e fiz da suíte uma sala de TV. Pouco a pouco, fui preenchendo a casa com outros móveis, outras lembranças e deixando Téo cada vez mais no passado. Mas, como uma assombração ou milagre, ainda sentia a sua presença em todos os cômodos do apartamento. Téo não estava mais na casa, mas estava ainda em mim. Tão em mim, tão dentro de mim, tão forte e presente em mim que eu achava um absurdo achar que eu não estava mais nele. Bem, eu não estava.
Durante anos, esperei o telefonema de Téo, o interfone tocar e alguém lá no térreo falar "oi, sou eu, voltei para nossa casa e a nossa parede vermelha, me aceite de volta". Não, Téo nunca voltou, jamais telefonou. E, sim, eu ainda espero Téo. Ainda acho que um dia isso acontecerá, alguma coisa dentro de mim me diz que Téo um dia vai chegar.
Tive vários namorados, amantes, ficadas, amigos com benefícios. Mas jamais trouxe alguém à minha casa com Téo. Nunca tive coragem de destruir a última lembrança que restava: o nosso amor dentro do nosso lar. E, as vezes, quando estou sozinha, na cozinha ou na varanda, sinto a sensação que Téo está tomando banho ou lendo jornal. Penso que ele saiu e foi comprar pão, que foi comprar cigarros e cerveja. Penso que Téo vai chegar a qualquer momento.
Deixo apenas uma lágrima cair, levanto a cabeça e saio de casa. Um dia o telefone vai tocar.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Loser's game.
Sentados ao chão, com a paciência de crianças que nada têm a fazer além de esperar que alguma coisa aconteça, Sofia, Clara e Guto fazem um campeonato de derrotas. Decepções amorosas, cicatrizes no joelho, uma relação ruim com os pais e o gosto brega pela música. Tudo é válido para ver quem perde mais no jogo da vida. Até o momento, Guto estava ganhando.
O telefone de Clara tocou. A mãe, que morava em outro estado, tinha sofrido um acidente de carro e a irmã, que a acompanhava, tentou tranquilizar Clara da maneira que pôde, mesmo dando a notícia de que a mãe passaria por três cirurgias ainda naquela noite. O telefone foi desligado, Sofia e Guto não sabiam o que dizer. E Clara, surpreendentemente, deu uma gargalhada. "Acho que ganhei no jogo dos perdedores". Guto e Sofia também sorriram e os três não conseguiram parar de rir. A vida era uma piada mesmo.
Guto era ateu, não acreditava em Deus, nem no amor. Clara era católica, ia à missa todo domingo. Sofia se dizia budista, mas ainda estava estudando sobre outras possibilidades religiosas. Mas, naquele dia, a fé dominou a vida dos três amigos. Não fé em algum deus ou em algum santo, mas a fé que o mundo não poderia ser tão cruel, as coisas iriam melhorar. Precisavam melhorar. Aquela maré ruim não duraria para sempre, eles eram fortes o suficiente para superar. Tudo ia ficar bem. Sim, tudo.
E lá se iam dez garrafas de cerveja, sapatos jogados ao alto e muitos sorrisos. Clara ligou para sua irmã. Sua mãe passava bem e os riscos de morte tinham desaparecido. Seria essa uma noite de sorte?
Guto olhou pela janela do apartamento e viu quando dois garotos passaram correndo da polícia e jogaram uma pedra, tentando acertar a viatura. Erraram a mira e, claro, a pedra foi no carro de Guto, que tinha acabado de sair do conserto. Guto virou e viu que as meninas comentavam sobre uma nova onda de sorte. Não contou do carro. Apenas abriu mais uma cerveja, distribuiu entre os copos e suspirou "se nada der certo, ao menos ainda poderemos jogar o jogo dos perdedores". E nada mais importava naquela noite do que sorrir.
O telefone de Clara tocou. A mãe, que morava em outro estado, tinha sofrido um acidente de carro e a irmã, que a acompanhava, tentou tranquilizar Clara da maneira que pôde, mesmo dando a notícia de que a mãe passaria por três cirurgias ainda naquela noite. O telefone foi desligado, Sofia e Guto não sabiam o que dizer. E Clara, surpreendentemente, deu uma gargalhada. "Acho que ganhei no jogo dos perdedores". Guto e Sofia também sorriram e os três não conseguiram parar de rir. A vida era uma piada mesmo.
Guto era ateu, não acreditava em Deus, nem no amor. Clara era católica, ia à missa todo domingo. Sofia se dizia budista, mas ainda estava estudando sobre outras possibilidades religiosas. Mas, naquele dia, a fé dominou a vida dos três amigos. Não fé em algum deus ou em algum santo, mas a fé que o mundo não poderia ser tão cruel, as coisas iriam melhorar. Precisavam melhorar. Aquela maré ruim não duraria para sempre, eles eram fortes o suficiente para superar. Tudo ia ficar bem. Sim, tudo.
E lá se iam dez garrafas de cerveja, sapatos jogados ao alto e muitos sorrisos. Clara ligou para sua irmã. Sua mãe passava bem e os riscos de morte tinham desaparecido. Seria essa uma noite de sorte?
Guto olhou pela janela do apartamento e viu quando dois garotos passaram correndo da polícia e jogaram uma pedra, tentando acertar a viatura. Erraram a mira e, claro, a pedra foi no carro de Guto, que tinha acabado de sair do conserto. Guto virou e viu que as meninas comentavam sobre uma nova onda de sorte. Não contou do carro. Apenas abriu mais uma cerveja, distribuiu entre os copos e suspirou "se nada der certo, ao menos ainda poderemos jogar o jogo dos perdedores". E nada mais importava naquela noite do que sorrir.
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