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domingo, 6 de novembro de 2011

Dois.

A mesa estava cheia. a música tocava no ambiente e Fagner gritava na radiola "se ao teu lado sei tão pouco de você, é pelos outros que eu sei quem você é' e Sofia viu um casal dançando ao lado na pista de dança mais decadente que já tinha visto. O boteco mais sujo da cidade tinha virado ponto de encontro entre Sofia, seus novos amigos do mestrado, seu núcleo de amigos gays e alguns amigos aleatórios como Nina, amiga que conheceu numa feirinha de artesanato e a quem comprou uma pulseira de prata - falsa.
Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, Roberto assistia a uma apresentação de jazz experimental, ouvia o som e seu sangue fervia. Ao seu lado, a roqueira de batom vermelho tinha belas curvas e um belo sorriso e bebia uma dose de uísque 12 anos. Roberto, então, ofereceu à Roqueira uma próxima rodada do drink e ela consentiu com um sorriso. Esqueceu o cartão de crédito. Merda! Foi sair para tirar dinheiro no posto de gasolina perto do bar. A roqueira era linda demais para deixá-la sem uísque.
Voltando a cena de Sofia no boteco mais sujo, em que Fagner conduzia  um casal na pista de dança mais decadente do mundo, o assunto agora era um conhecido de todos que andava anunciando que poderia vir um dia a talvez sair do armário. O papo consistia em todos os gays da mesma afirmarem que fulano sim-é-gay-eu-conheço-um-gay-de-longe-meu-amor e das garotas heteros falarem que não-acho-que-naquela-festa-no-prédio-da-cláudia-ele-queria-me-beijar. Isolada, Sofia continuava ouvindo a letra que saía da radiola. Agora, The Police empolgava com Every Breath You Take. Garçom, mais uma cerveja, por favor.
Roberto voltou ao bar, esticou o braço com o copo de uísque na mão para a roqueira bonitinha e antes que ela fisgasse a bebida, falou "me diga seu nome primeiro" e ela sorridente falou "Gisela" e aí eles começaram um papo besta sobre como era importante o incentivo a eventos como esse, que jazz experimental era o máximo e que gostavam muito daquele bar.
Sofia foi puxada para dançar por um mocinho da mesa ao lado.Dessa vez, a brega radiola tocava Gal Costa "Baby, baby, baby, eu sei que é assim, baby, baby, baby" e Sofia rodopiava com o mocinho no salão. Ele a levou até a quina da parece, colocou sua mão na perna de Sofia e beijou seu pescoço. Sofia rodou a nunca, dando uma volta tão longe que parecia nunca querer chegar na boca do mocinho. Até que chegou.
Roberto continuava o papo cabeça com a roqueira Gisela, até que a menina se cansou, um pouco envergonhada, é verdade, disse que morava ali perto e que poderia continuar a conversa por lá. Chegando ao sofá de Gisela, Roberto a pegou com força, a trouxe para cima de si e a beijou.
Sofia beijava o mocinho da mesa ao lado, Roberto beijava a roqueira bonitinha. E a sensação era, sempre, a mesma. Nenhum lábio era tão macio e as bocas jamais se encaixariam tão bem novamente como foi um dia. E naquele momento, exatamente naquele momento e talvez apenas naquele momento, Sofia e Roberto sentiram saudades.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Loser's game.

Sentados ao chão, com a paciência de  crianças que nada têm a fazer além de esperar que alguma coisa aconteça, Sofia, Clara e Guto fazem um campeonato de derrotas. Decepções amorosas, cicatrizes no joelho, uma relação ruim com os pais e o gosto brega pela música. Tudo é válido para ver quem perde mais no jogo da vida. Até o momento, Guto estava ganhando.
O telefone de Clara tocou. A mãe, que morava em outro estado, tinha sofrido um acidente de carro e a irmã, que a acompanhava, tentou tranquilizar Clara da maneira que pôde, mesmo dando a notícia de que a mãe passaria por três cirurgias ainda naquela noite. O telefone foi desligado, Sofia e Guto não sabiam o que dizer. E Clara, surpreendentemente, deu uma gargalhada. "Acho que ganhei no jogo dos perdedores". Guto e Sofia também sorriram e os três não conseguiram parar de rir. A vida era uma piada mesmo.
Guto era ateu, não acreditava em Deus, nem no amor. Clara era católica, ia à missa todo domingo. Sofia  se dizia budista, mas ainda estava estudando sobre outras possibilidades religiosas. Mas, naquele dia, a fé dominou a vida dos três amigos. Não fé em algum deus ou em algum santo, mas a fé que o mundo não poderia ser tão cruel, as coisas iriam melhorar. Precisavam melhorar. Aquela maré ruim não duraria para sempre, eles eram fortes o suficiente para superar. Tudo ia ficar bem. Sim, tudo.
E lá se iam dez garrafas de cerveja, sapatos jogados ao alto e muitos sorrisos. Clara ligou para sua irmã. Sua mãe passava bem e os riscos de morte tinham desaparecido. Seria essa uma noite de sorte?
Guto olhou pela janela do apartamento e viu quando dois garotos passaram correndo da polícia e jogaram uma pedra, tentando acertar a viatura. Erraram a mira e, claro, a pedra foi no carro de Guto, que tinha acabado de sair do conserto. Guto virou e viu que as meninas comentavam sobre uma nova onda de sorte. Não contou do carro. Apenas abriu mais uma cerveja, distribuiu entre os copos e suspirou "se nada der certo, ao menos ainda poderemos jogar o jogo dos perdedores". E nada mais importava naquela noite do que sorrir.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um novo dia começava para Sofia. Uma angústia estava presa à garganta. Uma sensação horrível, uma sensação de perder tudo. Ela precisava agora lutar contra tudo isso e recuperar as coisas que estava perdendo. Não sabia nem por onde começar. Era tanto amor, era tanto desespero. Ela sentiu vontade de sumir, de morrer. Ela sentiu um desejo súbito de não existir mais. Respirava fundo, procurava encontrar motivo nas coisas. Não achava. Tudo estava de cabeça pra baixo. Tudo. Sofia caiu ao chão.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sofia

Sofia saiu do banho e olhou para ele. Sentado na cama, olhava alguma coisa no computador. Ela se jogou ao seu lado. "Queria ser sempre o centro das atenções para você". Ele a beijou na testa e consolou "Você é mais interessante, mas isso é mais importante". Ela não se ofendeu. Levantou, enrolou a toalha no corpo e perguntou "Café?". Ele fingiu não ouvir. Então Sofia abriu as cortinas e viu que o sol brilhava lá fora. Mesmo assim, sentia frio. O barulho daquele quarto de hotel começou a irritá-la. O que estava fazendo ali? "Uma prisão de luxo", pensava. "Acho que vou dar uma volta, você vem?", ele não tirou os olhos do computador "Vá sozinha, depois te encontro''. Ela fez charme "E se eu não voltar?"."Você voltaria. Suas coisas estão aqui. Agora vá, me deixe trabalhar um pouco". Seco e impaciente, como sempre. Ela já devia saber. Tantos anos ao seu lado, sempre o acompanhando nas viagens nacionais, quando voltava ao Brasil, Sofia tinha se tornado mais que uma amiga. Era também amante dele. O homem que não amava mulheres, família, se quer amava bichos. Ele gostava de carros e dinheiro. Charutos, talvez. Mas dizia, surpreendentemente, amar Sofia. Ela não acreditava, não sentia. Mesmo assim, o amava também. Não por devolução, mas por pena. Tinha certeza que era a única no mundo que o conhecia tão bem e, mesmo assim, o queria bem. Terminou de se vestir, pegou o guarda-chuva. Ele, pela primeira vez no dia, olhou para ela. "Está fazendo sol, por que o guarda-chuva?". "Não sei até quando vou ficar lá fora" "Não sabe?" "Não sei quanto tempo a mais vai levar o seu trabalho" "Meu trabalho vai levar todo o tempo. Estou aqui para isso". O celular dela tocou, era Tom. Tom era a maior paixão de Sofia, moravam na mesma cidade e ela estava viajando com 'ele' há semanas, portanto há muito morria de saudades de Tom. Saiu do hotel, conversou com Tom ao telefone. Sentiu o céu, o sol e a voz de Tom lhe tocarem. E o dia, para Sofia, tinha acabado de começar.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

louca.comeplatemente.louca

Seria por uma banalidade, ela sabia. Depois de aguentar tantos fardos, fatos e falsos, ela sabia que por uma simples agulhinha, iria pirar. Pirou. Não tinha mais força para formar frases que fizessem sentido. Jogou tudo pro alto. Pediu demissão, acabou o namoro, fugiu de casa. Jogou o telefone celular no mar, perdeu a carteira, os documentos, se perdeu. Tirou o relógio do pulso, se sentiu livre. Olhou o céu, tentou respirar, respirar, respirar. Viu que ao seu redor as pessoas passavam, a olhavam, deviam cogitar "essa daí não tem mais nada o que fazer da vida". Ela tinha. Tinha tanto a se fazer, tanto que resolveu não fazer nada. Sabia que logo alguém chegaria para tirá-la do "surto". Encostou os pés na areia, alisou os próprios cabelos. "Queria um cafuné", pensou. Mas já que não tinha ninguém, ela mesma poderia fazê-lo. E se alisou, se deu carinho. Se entendeu. Estava com aquela sensação ninguémnomundomeentende e foi quando ele chegou, suado.
-Você está louca? Todo mundo está procurando você

Ela sorriu, como que desdenhasse da frase,

-'Todo mundo' quem?
-Todas as pessoas que você conseguiu tirar do sério, com esse sumiço sem pé ou cabeça

Ela sentiu vontade de explicar. Sentiu mesmo. Mas não, sabia que se esforçaria, mas ele não entenderia. Há coisas que só a gente entende, não é verdade? Então fez o que sabia fazer de melhor. Fingiu.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Lavou o rosto com força, parecia querer se machucar. Deixou, de propósito, o sabão entrar nos olhos. Talvez se algo ardesse ou doesse muito, ela conseguisse esquecer a mágoa que habitava em seu peito naquele instante. Decepção. Tristeza. Sofia estava indignada, perplexa. Qualquer termo mais exagerado e dramático também cai bem.
O que ela não entendia era a contradição do mundo sentimentalista. Ama, mas maltrata. Cuida, mas esquece. Entende, mas não compreende. Confessa, mas não muda. Um cansaço avassalador possuiu seu corpo. Quis deitar e não acordar nunca mais. Diante de tantos perdões, tantos recomeços, tantas chances de fazer tudo dar certo. Não deu certo. O pior é que Sofia sabia que aquela não seria a última vez que sentiria aquilo. As coisas não iriam mudar.
A vontade era de correr descalça, como que para se sentir viva de novo. O mundo inteiro se acabando, tudo se dissolvendo, mas Sofia sorria. Apenas esse tal assunto, esse tal de amor, a tirava o equilíbrio. Era justo? Não, não era justo. Ia acontecer de novo? Sim, ela sabia disso. Então por que não conseguia dar um basta em tudo isso? Isso ela não conseguiu responder. Aliás, ela não conseguiu agir. Sufocada pelo choro, engasgou com a própria angústia.
Ela estava se acostumando. Pobre Sofia.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dia de cão

Sofia tinha um sistema paradoxal de se sentir para com o mundo. As vezes ela estava sozinha em seu canto, mas se sentia completamente acompanhada. Outras tantas ficava rodeada de gente, mas se sentia só. Hoje era um dia que Sofia se sentia só.

Os sons da rua pareciam estar em uma sintonia muito distante. Sofia se esforçou para cantar a música do rádio, prestar atenção na conversa da colega ou apenas conversar com alguém. Tudo para esquecer, abstrair que estava em um dia ruim. Nada adiantou. Tudo permaneceu assim, como acordou. E o sol já começava a se pôr. O desespero bateu mais forte, pois é na melancolia da noite que os sentimentos se aguçam - bons ou ruins.

Chegou em casa, se trancou no quarto. Não precisava, estava sozinha em casa. Mas girou a chave apenas para ter um pouco mais de certeza que nada iria atrapalhar sua solidão. Viu a antiga pilha de vinis, pensou "Quando vou ter tempo de arrumar isso?". Tempo. Era isso que lhe faltava. Para si e para o mundo.

O telefone tocou, o celular descarregou de tanto chamar. Até o interfone desparou, mas Sofia não se movia. Seja lá quem fosse, seria incapaz de entender sua solidão crônica, aquilo que lhe fazia querer matar toda a humanidade - já que não faria difirença. Fechou os olhos, sentiu o sono chegar. E respirou fundo, pedindo que no outro dia a disposição chegasse.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

SOFIA

O mundo parou. Essa era a sensação. Nenhuma música nova a viciava, nenhum programa parecia interessante, nenhuma estréia boa nos cinemas. Tudo bem, era só um daqueles períodos amarelos, onde tudo parecia estar estagnado. Fazer o quê? Esperar que tudo mudasse, afinal, nada permanece da mesma forma por muito tempo. Pensou em largar o emprego. Pensou em pintar o cabelo. Pensou em fugir da cidade, em sumir de si. Que saudade. Saudade de quê? De tudo. Tudo o quê? Sabe lá de quê...

As vezes era necessário buscar ar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

sofia

- Ah, vou ao cinema com o Fred, se quiser vir...

Não. Sofia desligou o décimo quinto telefonema desesperado para sair de casa. Não, ela não queria sair com a amiga e o Fred, não queria segurar vela de novo. Desistiu. Ficar em casa, essa é a questão. Ligou a TV, estava naquele canal de propagandas, onde uma loira gostosa fazia demonstrações de como ter uma barriga sequinha em três dias. Três dias... Sofia tentava ter uma barriga sequinha desde... desde que ela se lembrava.
A vida inteira servindo a todos, sendo tão amiga, compreensiva e sorridente. E aí bastou Sofia surtar (por um feriadão, vale salientar) que todos pareceram sumir. Estava tudo errado, ela não queria ficar ali sozinha, se tivesse alguém que merecia sumir, esse alguém era ela. Por mérito, merecimento. Nem isso. Estava condenada ao programa do abdomen perfeito, ao último gole de vodka que sobrava numa velha garrafa. Mais que isso, Sofia estava condenada a mais uma dor de amor. De novo? Sim, de novo. Mas esse filme ela já sabia de trás para frente. Ia doer agora, ia doer semana que vem. Depois ia começar a melhorar e salve as vezes que encontrasse o desgraçado sorridente, acompanhado de uma vigarista, quase não haveria recaída. Mas o agora é que importava. Importava a dor demasiada de Sofia. Importava o barulho na rua, mostrando que todos tinham uma vida mais importante e feliz que a dela. Importava a tábua de frios em cima da mesa, esperando um jantar a dois. O que mais importava? Nada. Aquela dor familiar já estava camuflado no cansaço da repetição de se decepcionar. E, queridos, quando Sofia se acostumava com uma coisa, ela geralmente desprezava. Então desprezou a dor. Acordou no meio da madrugada no sofá, com a tv fora do ar e uma luz amarelada na casa. Mas antes mesmo de abrir os olhos, Sofia lembrou que estava triste. E por estar triste, merecia mais um pouco de sofá. A tv chiava, o coração doía. E Sofia fazia um esforço tremendo para , novamente, deixar de amar.

terça-feira, 16 de março de 2010

sofia

Sofia saiu do banho, enrolou-se na toalha branca, se olhou no espelho. Achou estranho ver a imagem. Devia andar ocupada demais, pois alguma coisa tinha mudado e ela, com certeza, não estava tendo tempo nem de se olhar no espelho. Emagreceu. Não, engordou. Não sabia, alguma coisa estava estranha. É, engordou, com certeza foi isso. E o cabelo... O cabelo cresceu. Não, ela cortou semana passada. Então é isso, cortou e nem deu tempo de admirar. Depois viu algumas manchinhas vermelhas na pele, sorriu. Aquilo ela não tinha dúvida do que era, puro fruto de 'cosquinhas' muito fortes, feitas pelo seu namorado. Sim, Sofia estava namorando e, talvez, por isso havia abandonado mais o espelho, o velho blusão de algodão e o vinho do porto - seu companheiro insubstituível nas noites de solidão. Sofia agora estava acompanhada e, por mais que seja a coisa mais normal do mundo moças conseguirem acompanhantes, Sofia se sentia única e especial. Naquele momento seu tom era de felicidade repleta, a música de fundo na sua cabeça era 'Shoulder to shoulder' e as cores eram vermelho e lilás. Tons de euforia e ternura. Escovou os cabelos, colocou a roupa que seus olhos achou mais linda. Não fez questão de voltar ao espelho, arriscou deixar que o mundo conferisse se estava tudo bem. Afinal, Sofia agora era do mundo. Possuia o mundo. Sofia nunca esteve não linda. Sofia amava.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

renda-se, como eu me rendi (ao amor)

"Ele beijou seus lábios, ela teve vontade de dizer que o amava, que estava com saudades; se segurou"


Sofia entrou no velho e bom café da esquina. Aquele ambiente tão íntimo, que por vezes serviu de plano de fundo para as cenas de sua vida. Quantos choros nos ombros das amigas, dores de cotovelo curadas a base de chá mate e limão. De vez em quando, quando a seriedade pedia, mandavam descer aquela cerveja "semi-importada" e pensavam estar bêbadas - já que não dá pra ficar bêbada com uma cerveja que custa 7 reais. Pois bem, Sofia entrou no lugar de sempre, falou com Afonso, o garçom que lhe atendia sempre. Viu todos os doces do cardápio, não pediu nada a mais do que seu velho café com menta. Foi quando Ele atravessou a porta de vidro. Sofia sentiu o coração enlouquecido, mas ela não deixou mostrar. Ele beijou seus lábios, ela teve vontade de dizer que o amava, que estava com saudades; se segurou.
Ele vestia tênis vermelho e usava um casaco velho e um tanto sujo. Como sempre, sem cerimônia e romantismo, foi franco e encurtou as carícias do encontro com a delicada frase 'preciso tirar água do joelho'. Sofia estava acostumada com aquele jeito. Afinal, há quanto tempo já estavam juntos? Bem juntos, na verdade "juntos", na prática, pois na teoria ainda eram amigos. Não conversavam sobre o que acontecia, o que tinham, o silêncio e as atitudes se faziam valer. Um filme passava na cabeça de Sofia, desde o dia em que tinha o visto pela primeira vez até o dia de hoje, onde já havia tanta intimidade. Foi pensando na vida que encostou a cabeça no balcão, afim de dormir e sonhar. Só então percebeu que junto a chave do carro dele e à carteira tinha um bilhete e algo embrulhado com papel brilhante. Sofia, intuitivamente, achou que era pra ela e abriu o pequeno presente amarrotado. O bilhete dizia 'seja minha' e o objeto metálico caiu no chão, rodou uns segundos e parou nos pés de Sofia. Ela abaixou-se, era uma aliança. Quando se levantou ele havia voltado e estava em sua frente, com um olhar ansioso. Ela apenas colocou o anel em seu dedo e beijou-lhe os lábios. Era a prova de que até mesmo os brutos ou as modernas, todos são românticos. E, no final das contas, todos queremos alianças.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

amantes futuros


"Pra que estrela está olhando?" "Para aquela dali, a que brilha mais" "E o que você tá pensando?" "Nas estrelas, oras". Sofia puxou a mão dele para perto e fez com que ele a abraçasse, ele beijou o seu ombro. "Prefere nuvens ou estrelas?" uma pausa de alguns segundos "Não sei, elas se completam tanto, não consigo imaginar nuvens sem estrelas, nem estrelas sem nuvens" "As estrelas ficam sempre ali, presas, sendo fundo para as nuvens passarem". Ela girou ao encontro dele, olhou cada detalhe. Fechou os olhos. "Você tá chorando?" "Eu estou feliz". Numa cidade tão grande, com tantos milhares de habitantes, em um bairro lotado, uma rua movimentada. Na varanda do terceiro andar, mais precisamente no chão, havia amor. E muito amor. Entre tantos outros, ali eles se amavam. Eles não viram, mas enquanto se abraçavam uma estrela cadente passou no céu e ouviu o desejo dela "eu vou amar você sempre". E amou.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sofia abriu a janela do quarto, respirou profundamente. Enfim sentia o cheiro do seu velho bairro pacato de novo. Depois de semanas viajando, de tantos dias fora, percebeu que lugar algum a fazia tão bem quanto a sua própria cama. Se sentou numa poltrona que ficava estrategicamente em frente à janela. Olhou o rapaz que vendia sorvete passando e riu. Riu por sentir emoção ao ver aquela cena tão ridícula, de um cotidiano tão simples, mas que era dela. Ela olhou as paredes do quarto, os avisos e bilhetes ainda estavam colados e pensou como era bom se sentir em casa. De repente olhou algo brilhando no chão, se abaixou e pegou o pequeno pedaço de vidro. Eram cacos do porta-retrato que ela tinha jogado ao chão, momentos antes de viajar. Seus olhos encheram de lágrimas, mas mesmo assim sorriu. Lembrou que ao quebrar a foto momentos antes de embarcar, tinha como intuito não deixar nada em sua casa que lembrasse 'ele'. A viagem a faria esquecer de vez o idiota, e na volta ela nem se daria conta que a prateleira estava com uma foto a menos. Ingênua Sofia! Marcelo estava em seu coração, em sua mente, em seus gestos. Ela era ele. Suas atitudes, o que pedia, o que comia, o que dizia. Tudo ainda estava impregnado com o cheiro dele. Em vez de se aburrecer Sofia abriu uma gaveta, pegou um álbum de fotos, escolheu uma em que ele estava deitado em seu colo. Lembrou daquele dia e com detalhes conseguiu sentir o cheiro da pele dele de novo. Colocou a foto em sua prateleira, aliviada:

-Diante dos meus olhos, dentro de mim... -
Fechou os olhos, abraçou a foto- Nem uma volta ao mundo arrancaria você de mim. Você estava comigo o tempo inteiro. Não posso fazer muito, então decidi que por enquanto vou continuar fazendo o de sempre: amando você.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ela o abraçou com força, quase o sufocou. Deitou no meio das pernas dele, puxou sua mão e praticamente forçou um cafuné:

-Sabe o que eu queria agora?
-Deixa eu imaginar... Um milkshake de ovomaltine, bem grande
-Eu falei o que EU queria agora, não o que VOCÊ quer.
-Tá, o que você queria agora?
-Sair daqui - e olhou pra baixo, como quem se arrependeu de ter dito
-Meu colo e meu cafuné estão tão péssimos assim, Dona Sofia?
-Eu os levaria comigo, juro
-Por que você nunca está satisfeita com o que tem? Por que você sempre 'queria' algo mais?

ela colou os olhos fixamente nele e com um tom ironicamente ofendido respondeu:

-No dia que eu parar de buscar as coisas, eu não estarei bem. É da minha natureza o que você chama de 'insatisfação' e eu jamais quero perder isso.
-No dia que eu te der tudo, Sofia. Quer dizer, se eu conseguisse um dia te dar tudo, o que mais você iria querer?
-Voar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

flores amarelas não valem muita coisa


E como saber quem é quem? Como saber quem você pode ou quem você não pode confiar? Como saber quem vai te fazer feliz, quem vai te fazer sofrer? Tantas dúvidas deixavam Sofia tonta e com vontade de vomitar. As flores na sala, com o pedido de desculpas, não faziam efeito nenhum. Ela ainda tinha vontade de chorar, vontade de esquecer tudo o que viu e ouviu. Ela olhou para as flores mais uma vez e enfim conseguiu reparar suas cores: eram brancas e amarelas. Ela recordou do dia que falou a ele "as flores amarelas resolvem todos os problemas do mundo", e sorriu de sua própria inocência. Sofia enfim percebeu que para certas coisas só existe um remédio: o tempo. Flores não curam tudo, ela tinha sido enganada quando a tinham ensinado isso. E agora? O que fazer com esse corte tão profundo, doloroso e invisível? Como tirar de seus pensamentos a imagem de ingratidão que não parava de girar em sua mente? Como se sentir quando você dar o seu melhor e não consegue? Sofia olhou pela janela e o dia estava ironicamente bonito. Dentro dela, um caos. Lá fora, tudo bem. Ela fechou a janela para que o brilho do dia não ofuscasse sua tristeza. Jogou as flores amarelas na lixeira e foi deitar, com a esperança de que dias melhores iriam chegar, que o tempo cicatrizasse o ferimento e que sua boca perdesse o gosto de sangue.

sábado, 8 de agosto de 2009

Sofia: laranja.

Estava eu sentada na sala, olhando o sol se pôr entre os monumentos de concreto, vendo o chão de minha sala ficar laranja. Eu, Sofia, sempre gostei de ver o chão laranja. E também sempre gostei de ver o sol se pôr, mas naquela tarde nada daquilo me chamava mais a atenção do que uma certa conversa, obtida em um certo momento, com uma certa pessoa. Me senti presa de repente, quando percebi que meus desejos e vontades estão limitados ao viável e ao possível. Tudo o que quero depende de algo e esse algo quase sempre joga no outro time. Meu desejo de última hora se chama 'amor'. Amor que desejo transbordar, entender e sentir (sem questão de ordem). A gente não ama quando quer, mas quando a gente ama a gente sempre quer. Quer mais, quer de novo, quer todo dia. Eu, naquela tarde laranja, não sabia o que queria, mas fosse lá o que fosse, eu sabia com quem era. Por fim me senti livre do passado pesado, toquei as pontas dos meus dedos no chão; meus dedos também ficaram laranjas. O que me levaria ao próximo capítulo? Eu não sabia. Eu ainda não sei. Mas uma certeza tomou conta de mim, a de que mesmo quando o 'algo' joga no outro time, existe um sol se pondo lá fora, existe o laranja do apartamento. E eu ainda existia ali. Uma leve intuição me dizia que algo de grande estava para acontecer...

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sofia: placas de carro não dizem nada


Sofia naquela manhã colocou a calcinha e o sutien da sorte. Não tomou o suco de maçã em caixinha, porque toda vez que ela tomava aquele bendito suco acontecia algo ruim. Tentou sair de casa com o pé direito e rezou no caminho para que tudo desse certo. De nada adiantou, a vaga do emprego tinha sido preenchida. Merda. Saiu do alto prédio empresarial e parou na banca de revista, pediu ao rapaz da banca que lhe desse uma carteira de Carlton, mas voltou atrás quando a voz irritante da consciência lhe disse que ela tinha parado de fumar. Saco! Nem fumar ela podia. Passou uma ambulância e Sofia tinha mania de somar todos os números das placas até totalizar apenas um. Era uma brincadeira que sua mãe tinha lhe ensinado e ela levava essa mania por toda vida. Somou todos os números, deu o número 8. O número significava ódio e era exatamente o que Sofia sentia naquele momento. Que dia azarado! Resolveu ir andando pra casa e enquanto pensava na bela porcaria que era sua vida, tropeçou e caiu nos braços de um anjo. E um anjo de carne osso. E de repente nasce um belo dia.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sofia : adeus, anel de coco


Saiu do banho, olhou a janela e decidiu sair. Vestiu o vestido predileto, deu uma olhada na geladeira, tomou o resto de coca-cola sem gás e deixou os pratos de ontem para lavar amanhã. Colocou água na plantinha, ligou a secretaria eletrônica, deu a última conferida no espelho e bateu a porta. Decidiu descer de escada e chegando na garagem resolveu ir a pé. Mas... ir aonde? Tanta pressa, tanto esquema, mas o rumo ela não tinha. Parou na banca de revistas, comprou cigarros e uma revista sobre música. Saiu andando pela rua e decidiu ir à praia. Estava chovendo, Sofia achava a chuva batendo no mar uma das 7 coisas mais lindas do mundo. Sentou na calçada e viu todo mundo indo embora da praia, se enrolando nas toalhas, reclamando da chuva que cortou o barato do sol. "Mais uma vez estou na contramão", pensou e apertou os olhos, deixando cair duas gotinhas de uma água mais salgada que a chuva. Entrelaçou as mãos, sentiu o anel de coco na mão direita "ah, era aliança de compromisso, mas agora é só anel', quantas vezes deu essa explicação. Foi tirando lentamente o anel de seu dedo, olhou para ele como se fosse o mais precioso dos diamantes, fechou os olhos, como quem não queria ver o que estava fazendo e jogouno chão. Sem olhar pra baixo, se levantou e disse baixinho:

-Eu não preciso mais de você

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sofia: dia de ressaca

Sofia estava completamente exausta. Chegou em casa, tirou os sapatos, pensou em tirar a maquiagem mas daria muito trabalho. Olhou o dia lá fora, que começava a raiar, e pensou 'hoje é dia de ressaca'. Suspirou e deprimiu, quase que ao mesmo tempo. Dia de ressaca significava um dia inteirinho sozinha em casa, em frente à TV e sem ninguém para sair, beber e esquecer (necessariamente nessa ordem). Sofia andava querendo esquecer a novela, o aluguel, o hospital, as dívidas, o ex-namorado, o microondas que tava quebrado. Queria esquecer essa vida normal, esse cotidiano barato (nem tão barato, porque o que ela andava gastando em cerveja...), queria esquecer seu nome. Numa confusão de tédio, choro travado e sono ela vai até a janela e acende um cigarro. Na primeira tragada lembrou que não tinha comprado a marca habitual e sentiu vontade de vomitar com aquele gosto novo. Olhou no relógio, eram 6:22. Pensou em caminhar, mas foi só olhar os pés ainda marcados (e massacrados) com a fivela da sandália que desistiu. Deitou na cama, fechou os olhos, ficou num meio termo entre dormir e imaginar. O telefone toca, Sofia pensa quem está atrapalhando seu sono e se surpreende ao ver o relógio marcando 11:57, ela ainda se sentia tão cansada, como se não tivesse chegado nem perto de sua cama. De péssimo humor atendeu o telefone:

-Oi
-Sofia? Oi, é Augusto
-Ah, oi. É... Oi, o que foi?
-Não foi nada, eu tava viajando, voltei hoje, lembrei de você

Um sorriso no céu da boca quase sai até os lábios de Sofia, mas ela o reprime e repete o mantra compulsivamente em sua mente "ele não presta, ele não gosta de você". Mas Sofia gostava dele mesmo assim.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O garoto da casa ao lado

Sofia pegou o jornal, tomou um gole do café. Ouviu algum estrondo na rua, uma batida de carro talvez, então levantou-se e foi até a janela. Viu que algumas pessoas também tinham ido ver o tal estrondo, mas não tinha nada na rua... Talvez tenha sido algum maluco que passou fazendo graça. Levantou os olhos e viu o céu, abaixou um pouco e viu a antena parabólica de um dos prédios vizinhos ao seu e foi só descer um milímetro de sua visão que se deparou com a janela. A janela da casa de Augusto, a tal janela que há algum tempo fazia Sofia suspirar. Ela lembrou de quando acompanhava os passos que Augusto dava de sua casa até a dela e de como seu coração gelava quando ouvia a campanhia de sua casa tocar. Como num flashback chegou a sentir o perfume de Augusto novamente, quase podia toca-lo, pois ainda lembrava do tom de sua voz e da textura de sua pele. De repente Sofia sentiu um sorriso no céu de sua boca, tinha boas lembranças. Muitas. Talvez as coisas tivessem tomado rumos diferentes dos que eles imaginaram, e talvez esse caminho de agora fosse sem volta. Mas as rosas que tinham cultivado eram eternas e essas sempre valeriam a pena recordar. Rosas, que nem as que o porteiro trouxe para Sofia numa terça-feira modorrenta.

'Para sempre teu, para sempre meu, para sempre nosso'